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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Nascente


Fui tanto rio abaixo
Lá da nascente que nem sabia que era nascente
Fui tanto rio abaixo

Escorreguei escapando da margem direita
Direto para o oposto
E da esquerda para o oposto

Fui tanto rio abaixo
Lá da nascente lá atrás

E aí eu só olhava

Escorregando
Escapando de galho aqui
E galho ali

Quando tudo parou
O barco me lançou à terra



domingo, 6 de novembro de 2016

Batatas

Meu pai amassava as batatas cozidas com o garfo, para eu comer, e fazia "aviãozinho". Eu tinha uns três ou quatro anos, acho. Ele as amassava e sorria. Me dizia assim:
"Quando eu estiver bem velhinho, você vai me dar comida assim também?"
Eu dizia que sim. Ele estar bem velhinho, eu imaginava, estava bem distante, quase beirando o impossível. Filhos seriam sempre filhos; pais, sempre pais.

Até hoje me lembro dessa cena, e estou com mais de quarenta. Tenho uma certa tristeza dessa certeza
que a gente tem quando é mais novo: seremos sempre filhos e os pais serão sempre pais.Eu queria que fosse assim, mas não é assim, e nem seria justo.

Imaginamos nossos pais como heróis que sabiam tudo, que, vindos de sabe-se lá onde, sabiam tudo sempre mais que nós. Quando erravam, dependendo do caso, nós os culpávamos, pois, segundo a gente mesmo, teríamos sido mais sábios. Nunca paramos para analisar que eles, também, foram filhos que imaginavam seus pais para sempre e que, de repente, a coisa muda?

Quantos de nós poderíamos ter feito diferente, tentando enxergar os pais como pessoas que seremos, ou que somos agora, cheios de dúvidas e sacrifícios, sempre tentando acertar, e, por vezes, sem saída aparente perante todo esse monte de coisas que a gente chama de vida? Faríamos ou faremos diferente? Se estamos aqui pensando nisso, será que erraram?

Embora antes nem sempre o tenha feito, reconheço a humanidade, o esforço de nós, mortais cheios de dúvidas, quando vejo que nossos pais tentaram fazer as coisas do modo mais certo possível, se privando de muitas coisas, para que nós, os filhos, tivéssemos o melhor possível.

Meu pai ainda amassa batatas quando tento fazer as coisas do modo certo; minha mãe ainda me leva à escola quando ganho a vida de um modo honesto.

É assim que posso retribuir, é assim que eu posso continuar com eles para sempre: como um bom filho.
 





Sonho


O vento e a chuva
Juntos
Haviam levado tudo

E o mar ameaçava lá longe

A casa
No topo da torre balançava
E o que eu achava cimento
Era madeira podre

E tudo ia para cá e para lá

É que tudo era um sonho mas eu não sabia
E como tudo era um sonho mas eu não sabia

O vento e a chuva
Juntos
Haviam levado tudo

E o mar ameaçava lá longe

A casa
No topo da torre balançava
E o que eu achava cimento
Era madeira podre

E tudo ia para cá e para lá

Esquecer



Teve coisa que me marcou muito
E que eu daria a vida para não perder
(Ninguém me tiraria)

É que eu não sabia que não era pra sempre
E que ninguém precisava tirar para eu não ter mais


A gente sempre vive aqui
E o que não serve mais pra hoje
Não serve para amanhã



Distância


Tinha um barco ainda ontem
Na margem do ainda hoje
Que ficou no meio do rio que vai
Em que você se foi

Eu sempre fico aqui
À sombra do salgueiro

Se me nado ou não
Fica sempre a dúvida

Porque ainda estou na margem
E o barco que iria ir de qualquer jeito
Se foi

-----

Aí a distância é relativa
É grande para uns
Pequena para outros

Se quem fica
Fica esperando sempre à margem
É muito grande para o desesperançoso

Se se vai
Havendo outras margens
Para se ficar e ver
É pequena para o navegante

Mas é enormemente pequena
Tangendo o esquecimento
 ...
...


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Desenhos de infância

E era assim que me contavam
Aquela estória de dormir
Para dormir bem assim
Como querem,
Mas não acordam

Desenhos de infância
Coisa que se perde
Rolando abaixo

E eu dormia
Era estória para dormir de tudo
E acordar ainda sonhando

Hoje durmo pra tudo isso sem sonhar
Porque sei que conto estórias
(E que quem conta vai além da conta)

Sei que não acordei e não vivi
Que perdi
E só resgato para os outros
Seguirem igual

E nem eu sei o porquê
Porque só aprendi
Que me só contaram
Sós

Tamanheza

A tamanheza da sombra que o envolvia
lhe sumia o rosto e lhe assumia o bater de vida. Não era outra pessoa, nem era ele mesmo. Mas estava com ela, a sombra, até os ossos.

Era tão obscuro o pulsar grosso e graxo e amarelo que subia aos seus olhos,
que o que restava eram duas janelas pálidas, como dois tocos de velas no interior de um casarão.

Nem sempre tinha sido assim

Mas ele deixou o nevoeiro vivo queimar e virar isso que o envolvia agora de fora para dentro.

Havia, no entanto, o sentimento agora estranho de que sobrava algo do passado  vivo.

Era ele ainda. Teve uma ideia final.

Apequenou-se dentro da tamanheza de tudo que já tinha sido, e apequenou-se mais ainda. Saiu de si e de toda a tamanheza da sombra, escapulindo pelas lágrimas de espanto da névoa negra. A sombra, assustada, gritava para que ele voltasse ao tamanho original, para que ela tivesse uma alma.

Já bem longe, o agora humilde ser fugiu e olhou para trás.

Se viu em chamas agora, as duas pequenas velas haviam causado o incêndio e toda aquela tamanheza ruía. Havia luz nos olhos, muita luz.

Correu em direção à pequeneza, em direção ao solo húmido, para começar de novo, como uma semente, mas para crescer e ficar pequeno, mas respirando de novo o nevoeiro fresco.

Flying Ship

...

...


Em um mar lá em cima
Com ondas de nuvens
E pássaros de barbatana
Flutua uma nau
Bem acima de nossos sonhos baixos

Ora sobe, ora desce

Quem vê se afoga de espanto
Na estranheza de ficar submerso
Nadando no ar
Enquanto o que ficava abaixo
Agora navega na fumaça

A nave não sabe que não pode voar
E quem a navega
Não sabe que são gaivotas que ele pesca

Ele não sabe que gaivotas se acham peixes
Quando alguém as olha de cima.



...

...