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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Desenhos de infância

E era assim que me contavam
Aquela estória de dormir
Para dormir bem assim
Como querem,
Mas não acordam

Desenhos de infância
Coisa que se perde
Rolando abaixo

E eu dormia
Era estória para dormir de tudo
E acordar ainda sonhando

Hoje durmo pra tudo isso sem sonhar
Porque sei que conto estórias
(E que quem conta vai além da conta)

Sei que não acordei e não vivi
Que perdi
E só resgato para os outros
Seguirem igual

E nem eu sei o porquê
Porque só aprendi
Que me só contaram
Sós

Tamanheza

A tamanheza da sombra que o envolvia
lhe sumia o rosto e lhe assumia o bater de vida. Não era outra pessoa, nem era ele mesmo. Mas estava com ela, a sombra, até os ossos.

Era tão obscuro o pulsar grosso e graxo e amarelo que subia aos seus olhos,
que o que restava eram duas janelas pálidas, como dois tocos de velas no interior de um casarão.

Nem sempre tinha sido assim

Mas ele deixou o nevoeiro vivo queimar e virar isso que o envolvia agora de fora para dentro.

Havia, no entanto, o sentimento agora estranho de que sobrava algo do passado  vivo.

Era ele ainda. Teve uma ideia final.

Apequenou-se dentro da tamanheza de tudo que já tinha sido, e apequenou-se mais ainda. Saiu de si e de toda a tamanheza da sombra, escapulindo pelas lágrimas de espanto da névoa negra. A sombra, assustada, gritava para que ele voltasse ao tamanho original, para que ela tivesse uma alma.

Já bem longe, o agora humilde ser fugiu e olhou para trás.

Se viu em chamas agora, as duas pequenas velas haviam causado o incêndio e toda aquela tamanheza ruía. Havia luz nos olhos, muita luz.

Correu em direção à pequeneza, em direção ao solo húmido, para começar de novo, como uma semente, mas para crescer e ficar pequeno, mas respirando de novo o nevoeiro fresco.

Flying Ship

...

...


Em um mar lá em cima
Com ondas de nuvens
E pássaros de barbatana
Flutua uma nau
Bem acima de nossos sonhos baixos

Ora sobe, ora desce

Quem vê se afoga de espanto
Na estranheza de ficar submerso
Nadando no ar
Enquanto o que ficava abaixo
Agora navega na fumaça

A nave não sabe que não pode voar
E quem a navega
Não sabe que são gaivotas que ele pesca

Ele não sabe que gaivotas se acham peixes
Quando alguém as olha de cima.



...

...