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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Tamanheza

A tamanheza da sombra que o envolvia
lhe sumia o rosto e lhe assumia o bater de vida. Não era outra pessoa, nem era ele mesmo. Mas estava com ela, a sombra, até os ossos.

Era tão obscuro o pulsar grosso e graxo e amarelo que subia aos seus olhos,
que o que restava eram duas janelas pálidas, como dois tocos de velas no interior de um casarão.

Nem sempre tinha sido assim

Mas ele deixou o nevoeiro vivo queimar e virar isso que o envolvia agora de fora para dentro.

Havia, no entanto, o sentimento agora estranho de que sobrava algo do passado  vivo.

Era ele ainda. Teve uma ideia final.

Apequenou-se dentro da tamanheza de tudo que já tinha sido, e apequenou-se mais ainda. Saiu de si e de toda a tamanheza da sombra, escapulindo pelas lágrimas de espanto da névoa negra. A sombra, assustada, gritava para que ele voltasse ao tamanho original, para que ela tivesse uma alma.

Já bem longe, o agora humilde ser fugiu e olhou para trás.

Se viu em chamas agora, as duas pequenas velas haviam causado o incêndio e toda aquela tamanheza ruía. Havia luz nos olhos, muita luz.

Correu em direção à pequeneza, em direção ao solo húmido, para começar de novo, como uma semente, mas para crescer e ficar pequeno, mas respirando de novo o nevoeiro fresco.

Um comentário:

  1. Adorei, esse poema é bem profundo e passível de várias interpretações.

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