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domingo, 6 de novembro de 2016

Batatas

Meu pai amassava as batatas cozidas com o garfo, para eu comer, e fazia "aviãozinho". Eu tinha uns três ou quatro anos, acho. Ele as amassava e sorria. Me dizia assim:
"Quando eu estiver bem velhinho, você vai me dar comida assim também?"
Eu dizia que sim. Ele estar bem velhinho, eu imaginava, estava bem distante, quase beirando o impossível. Filhos seriam sempre filhos; pais, sempre pais.

Até hoje me lembro dessa cena, e estou com mais de quarenta. Tenho uma certa tristeza dessa certeza
que a gente tem quando é mais novo: seremos sempre filhos e os pais serão sempre pais.Eu queria que fosse assim, mas não é assim, e nem seria justo.

Imaginamos nossos pais como heróis que sabiam tudo, que, vindos de sabe-se lá onde, sabiam tudo sempre mais que nós. Quando erravam, dependendo do caso, nós os culpávamos, pois, segundo a gente mesmo, teríamos sido mais sábios. Nunca paramos para analisar que eles, também, foram filhos que imaginavam seus pais para sempre e que, de repente, a coisa muda?

Quantos de nós poderíamos ter feito diferente, tentando enxergar os pais como pessoas que seremos, ou que somos agora, cheios de dúvidas e sacrifícios, sempre tentando acertar, e, por vezes, sem saída aparente perante todo esse monte de coisas que a gente chama de vida? Faríamos ou faremos diferente? Se estamos aqui pensando nisso, será que erraram?

Embora antes nem sempre o tenha feito, reconheço a humanidade, o esforço de nós, mortais cheios de dúvidas, quando vejo que nossos pais tentaram fazer as coisas do modo mais certo possível, se privando de muitas coisas, para que nós, os filhos, tivéssemos o melhor possível.

Meu pai ainda amassa batatas quando tento fazer as coisas do modo certo; minha mãe ainda me leva à escola quando ganho a vida de um modo honesto.

É assim que posso retribuir, é assim que eu posso continuar com eles para sempre: como um bom filho.
 





Sonho


O vento e a chuva
Juntos
Haviam levado tudo

E o mar ameaçava lá longe

A casa
No topo da torre balançava
E o que eu achava cimento
Era madeira podre

E tudo ia para cá e para lá

É que tudo era um sonho mas eu não sabia
E como tudo era um sonho mas eu não sabia

O vento e a chuva
Juntos
Haviam levado tudo

E o mar ameaçava lá longe

A casa
No topo da torre balançava
E o que eu achava cimento
Era madeira podre

E tudo ia para cá e para lá

Esquecer



Teve coisa que me marcou muito
E que eu daria a vida para não perder
(Ninguém me tiraria)

É que eu não sabia que não era pra sempre
E que ninguém precisava tirar para eu não ter mais


A gente sempre vive aqui
E o que não serve mais pra hoje
Não serve para amanhã



Distância


Tinha um barco ainda ontem
Na margem do ainda hoje
Que ficou no meio do rio que vai
Em que você se foi

Eu sempre fico aqui
À sombra do salgueiro

Se me nado ou não
Fica sempre a dúvida

Porque ainda estou na margem
E o barco que iria ir de qualquer jeito
Se foi

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Aí a distância é relativa
É grande para uns
Pequena para outros

Se quem fica
Fica esperando sempre à margem
É muito grande para o desesperançoso

Se se vai
Havendo outras margens
Para se ficar e ver
É pequena para o navegante

Mas é enormemente pequena
Tangendo o esquecimento
 ...
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